Desabafo aos amigos

Final de 2001, dentro de um avião, voltando de São Paulo, começo a tentar organizar a minha correspondência e, com surpresa, leio uma mensagem da Med Rio, onde anualmente confiro se a saúde está em dia, informando que, pelos exames feitos, deveria procurar um urologista, pois o meu PSA, de um ano para o outro saiu de 1, para 10.

Antes de procurar o urologista, fiz novo teste. De novo 10. Quando estava vendo o resultado deste exame, aparece na minha frente Marcos Lázaro, que inteirado do assunto, me encaminhou para o “Pelé” da urologia, Dr. Miguel Srougi. Logo no primeiro exame, ele foi claro, dando conta de que havia um tumor, provavelmente maligno, na próstata.

O próximo passo foi me pesquisar de ponta a cabeça. Após todos os exames, surgiu a suspeita de que um ponto estranho na cabeça pudesse ser uma metástase, além do grau 8 em agressividade do tumor. E, era preciso detectar e, rápido, pois só poderia operar se não fosse confirmada a metástase. Se fosse operar não adiantaria e o jeito seria ir empurrando a vida com a barriga, até onde desse, na base de hormônios.

A indicação era a de uma agulha enorme, enfiada cabeça a dentro para retirar o material. Procedimento feito, resultado negativo. Enquanto comemorava o resultado, meu médico, ainda desconfiado, achando que poderia ter havido um erro no procedimento, partiu para o exame definitivo de abrir a cabeça e ir ao ponto exato da suspeita e, aí sim, retirar o material para exame.  Isto foi feito e, graças a Deus, a suspeita não se confirmou. Era algo raro, tipo regeneração de tecido e, se não estou equivocado o nome era doença de Paget, ou seja, nada grave.

Diagnóstico definido, partimos para a operação e, como estava eu entregue a um gênio da medicina, tudo correu bem. Na sequência, algumas sessões de radioterapia e, de novo à vida.

Conto tudo isso para dizer que, apesar do drama, da incerteza de continuar vivo, pude me conhecer melhor. Na conversa comigo mesmo foi fácil concluir que, como não sou diferente e melhor do que ninguém, este tipo de coisa também pode acontecer comigo. Portanto, revolta com Deus, zero.

O próximo passo foi de avaliação, pois o meu balanço de vida, nunca tendo feito mal a ninguém, além de bom amigo, filho, pai e companheiro, me deu paz e esperança.

Em síntese, ante tanta adversidade, graças a minha alma depurada, entendi que as “injustiças” fazem parte da vida e, nenhum de nós está imune a elas. Pensando assim, encontrei forças para lutar pela vida e, aqui estou. Venci esta batalha.

Ontem, fui vítima da maior injustiça que sofri ao longo de 69 anos de vida. Nunca me doeu tanto. Nunca fui tão maltratado. Nunca fui tão injustiçado. No Flamengo, como em qualquer lugar, há o ser humano e, como bem definiu o filósofo Doalcei Benedicto Bueno de Camargo, “o ser humano é um grande filho da puta. Há exceções”.

Atrocidades jurídicas foram cometidas. Pela primeira vez, na história dos clubes, no mundo inteiro, houve um recurso para quem foi inocentado, além de terem ignorado o estatuto do clube e a legislação vigente no país. Maldade pura, inveja, mesquinharia, covardia, deslealdade e medo…

Para quem passou pelo que passei, isto é pinto. Se lá atrás, ante adversidade maior, encarei, imagine agora, perdendo somente por 18 votos…

Estou renovado, pronto para encarar os adversários e ir até as últimas consequências. Duvido que, rapidamente, o judiciário não corrija esta aberração de me afastar do clube por dez meses.

Dissimulados, cínicos e de caráter duvidoso, preparem-se. Voltarei em breve!

Quem viver, verá!!!

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