PaiMengo

(Reprodução da internet) Kleber Leite

Amigos queridos, pais ou ainda não pais: Neste dia tão especial, reproduzo aqui no nosso blog o lindo texto de Renato Mauricio Prado, no JB, de hoje.


Dia dos Pais no Ministério do Tempo

Influência do “Ministério del Tiempo”, divertida série espanhola que comecei a acompanhar no Netflix, sonhei ontem, véspera do Dia dos Pais, que voltava ao passado, cruzando portas que me transportavam, como num passe de mágica, a tempos já vividos. Não podia, porém, interagir com ninguém, nem mexer em nada. Apenas observar. E isso já era o bastante.

Foi assim que revi, em 1963, o Fla-Flu que decidiu o Estadual daquele ano, num Maracanã explodindo de tanta gente. O rubro-negro se sagraria campeão, com um 0 a 0, mas no sonho não era o jogo que me chamava a atenção, mas um menino que, feliz da vida, no colo do pai, nas superlotadas cadeiras azuis (aquelas que ficavam embaixo das arquibancadas), se maravilhava com aquele mundo novo à sua frente. Mal sabia que, no futuro, tal universo lhe seria tão próximo. E que o Flamengo, time de coração do “velho”, se tornaria uma de suas grandes paixões. Que tarde!

Através de outra passagem no tempo, o sonho me levou, em seguida, a mais um jogo épico, no mesmo Maracanã, novamente superlotado. O ano era o de 1969 e Brasil x Paraguai faziam um duelo dramático, pelas eliminatórias da Copa de 70. Uma vez mais nas cadeiras azuis, com o velho, um então já adolescente sofreria durante 68 minutos até que Pelé  estufasse as redes, garantindo a vitória por 1 a 0 e a vaga para o Mundial. Que jornada inesquecível! E quanta alegria no abraço emocionado de pai e filho, comemorando, eufóricos, o triunfo das “feras do Saldanha”.

Passando mais transversais do tempo, acabei no Maracanãzinho, onde os “Harlem Globetrotters” se exibiam, em meados dos anos 60. E lá estavam eles, juntos como sempre, o jovem e o pai, fãs do basquete, que já dera dois títulos mundiais ao Brasil, mas não podia se comparar ao nível do jogo que praticavam os americanos nesse esporte. Mágico. Inesquecível!

Nem todas as épocas visitadas, porém, reservavam somente alegrias. Eis que, de repente, me vi num fusca, em 1970, acompanhando, divertido, a conversa de pai e filho, enquanto, no Motorola do carro, o comentarista Ruy Porto analisava mais uma derrota do Flamengo. E o pai praguejava: “Time de cegos, meu filho. Se tirar o guizo da bola, ninguém joga. Só o argentino Doval é craque. Ah, nos meus tempos, o Flamengo tinha onze dovais em campo! E o moleque, no banco do carona, se pegava, matutando: “Onze dovais, pai? Cacilda”!

Mal sabia ele que, em pouco mais de dez anos, acompanharia, de pertinho, uma equipe rubro-negra que conquistaria o mundo, bem na sua frente, no Japão, permitindo-lhe a imensa alegria de ligar para o “velho”, do outro lado do planeta, só pra dizer, com a voz embargada: “Esse time aqui é o melhor Flamengo de todos os tempos. Tem mais que onze dovais, pai”! Que era maravilhosa, dava vontade de não acordar, nem sair mais dela.

Mas, sonho é sonho, e outras portas se abriam. E foi assim que reencontrei a praia de Ipanema das décadas de 70 e 80, onde pai e filho tinham uma rede de vôlei, sempre cheia de amigos e na qual as partidas de duplas se sucediam, disputadas com empenho, entusiasmo e alegria. O jovem até que jogava direitinho, chegou a ser federado pelo Botafogo, no infantil, e pelo Flamengo, no juvenil. Mas o coroa dava banho nele e em todos os da sua turma! Era craque, mesmo. Que toque! E que agilidade! Parecia um gato! E levava jeito para todos os esportes. Um baita atleta.

Foi ainda nas areias de Ipanema que pude rever, no sonho, pai e filho em longas caminhadas diárias. O mais jovem recuperando-se de uma grave contusão no tornozelo (sofrida justamente num jogo de vôlei) e o mais velho a lhe fazer companhia, do Castelinho ao Jardim de Alah. Quanta conversa boa e franca, naquele trajeto pela areia fofa – exigência da fisioterapia. Quanto companheirismo e solidariedade.

Portas, portas e mais portas. Que me levaram até à Copa de 78, na Argentina, onde o jovem, já jornalista, cobriu o seu primeiro Mundial, como enviado especial do Jornal do Brasil. Boas lembranças de lá? Com certeza. Mas as melhores vinham mesmo dos papos na volta, com o pai e a família, quando todos se deliciavam com as histórias que não podiam sair no jornal, como a do “perro caliente”, a do “Veni, veni, que yo voy pelear” e tantas outras peripécias vividas pelo caçula, na terra dos Hermanos.

No sonho, foi possível ainda me transportar até o ano de 1987, onde pude presenciar o filho, como correspondente internacional, então do Globo, levar o pai para conhecer os bastidores de um GP de Fórmula-1, no Estoril. Os olhos do velho brilhavam, vendo de pertinho os bólidos, nos boxes, e pilotos como Piquet, Senna e Prost preparando-se para a corrida. Já o olhar do filho se iluminava pela alegria de estar permitindo a ele tal prazer.

Até por Roma, passeei, no melhor estilo “El Ministério del Tiempo”, quando pai e filho (então acompanhados pela mãe) assistiram a um Mundial de Atletismo, no qual Zequinha Barbosa conquistou uma medalha de bronze, nos 800 metros. Que viagem deliciosa! Bem como a temporada que passaram juntos na Espanha, onde o rebento morava.

Tempo, tempo, tempo. Uma porta sombria de fevereiro de 1992, no entanto, tive o cuidado de evitar, para que o sonho, até ali tão bom, não se transformasse em pesadelo, ao reviver aquela despedida tão inesperada, tão prematura, tão absurda e eternamente doída.

Saudade, saudade, saudade. Como disse certa vez um amigo, ela não tem braços. Mas como aperta. Ainda que em sonhos, como é bom te rever, velho! Feliz Dia dos Pais para todos!

Renato Maurício Prado – Jornal do Brasil – 12 de agosto de 2018


Ali me vi ante situações tão parecidas que, também, voltei no tempo e me vi de mãos dadas com meu pai e minha mãe, entrando pela primeira vez, aos seis anos, no Maracanã, para ver o Flamengo tri-campeão.

A lembrança seguinte não foi boa. O ano, 62, meu pai e eu, no setor 4 do Maracanã, reservado para os sócios dos clubes, e ver Garrincha, sozinho, ganhar o campeonato. Tristeza, amenizada pelo fato de termos sido derrotados por um gênio.

No ano seguinte, 63, de novo no setor 4, um FLA-Flu de arrepiar, com Marcial fechando o gol e 0 a 0, dando o título ao Flamengo. Importante dizer que esta jornada ao lado do velho começou na Igreja de São Judas Tadeu.  Rezamos e velas acendemos. À tarde, Mengão campeão.

O amor pelo Flamengo me empurrou para o jornalismo. A venda de Gérson para o Botafogo despertou em mim a necessidade de dizer o que pensava. Mais uma vez, meu pai. Foi ele quem abriu as portas do Rádio para mim, por meio de um amigo que era diretor da Rádio Vera Cruz. Ali comecei. Graças ao empurrão dele.

Juntos saboreamos a era Zico. Eu viajando com o Flamengo para tudo que é lugar, e ele, meu maior ouvinte, saboreando as glórias da sua paixão maior, contadas pelo filho.

Fernando de Souza Leite, comandante da Marinha, rubro-negro de corpo e alma, apaixonado pelos animais, em especial pelos cachorros, marcou a minha vida com estas duas paixões, com as quais convivo, e sem as quais não teria valido a pena ter vivido.

(Reprodução da internet) Kleber Leite