A dor de cada um

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Definitivamente, estamos diante de uma transformação nos hábitos e costumes da humanidade.

A internet virou o mundo de cabeça para baixo, onde, como que num passe de mágica, parte significativa da humanidade – acho que a maioria – ficou dependente, quase que escravo, deste fenômeno.

Confesso que fiquei assustado ao ouvir o excelente apresentador André Rizek criticar os atuais jogadores da Seleção Brasileira, pelo fato de não terem se manifestado publicamente sobre o falecimento de Carlos Alberto Torres. Rizek, fez questão de elogiar a única exceção, que foi o palmeirense Gabriel Jesus.

Tudo bem que não há como se dançar qual não seja no ritmo da música que está tocando. Reconheço ser mesmo complicado, mas há um limite para tudo nesta vida, inclusive para as “obrigações” impostas pela modernidade.

Tostão, em seu livro recente, afirmou que, no caso dele, telefone celular só serve para fazer e receber ligações, pois o restante do “cardápio” oferecido pela engenhoca, ele não domina. Tostão, não tem “Face” e, outras novidades do gênero.

Embora a maioria das pessoas não haja como o tricampeão mundial, uma quantidade razoável de seres humanos age e pensa como ele.

Portanto, não pode ser obrigação de ninguém, inclusive dos jogadores de futebol da Seleção Brasileira, postar pensamentos ou sentimentos.

O fato de Gabriel Jesus ter se manifestado merece uma pergunta. Será que a iniciativa foi realmente dele, ou de sua assessoria de imprensa?

Além do aqui colocado, há ainda o argumento definitivo de que cada um sente a dor de uma forma, inclusive em silêncio. E, há ainda quem prefira se esconder, como se a fuga amenizasse a dor.

Enfim, com todo respeito à modernidade, ninguém é obrigado a se manifestar publicamente, seja por estar feliz, seja por estar infeliz, seja para exaltar, seja para lamentar.

A cobrança soa injusta e impertinente. Rizek, apesar de ser um craque, também perde pênalti. Tem direito, como todo ser humano, falível por natureza ou, por demais influenciado pelo novo mundo da internet.

Criando coragem

Uma das melhores coisas que aconteceram ultimamente para mim, foi a criação deste blog. Tenho uma noção exata da importância de poder emitir uma opinião. Escolhi o jornalismo como profissão no dia em que o Flamengo vendeu o melhor meio campo do mundo para o Botafogo.

Gérson, o “Canhotinha de Ouro”, foi o responsável pela minha opção profissional. A necessidade de gritar para todo mundo ouvir, que o Flamengo estava cometendo uma loucura foi a certeza que tive do caminho que precisava percorrer. E, de 1969 até 1990, o trabalho para mim foi lazer. Amava o que fazia. Dia de folga, alegria para muitos, para mim era um vazio. Se bem que, como também havia, de forma paralela, o meu lado comercial, no fundo, no fundo, não havia era dia de folga e sim, dia de folga como repórter que, como já disse, não achava a menor graça.

Acabei fugindo do tema original. Já tinha a experiência em emitir opinião. Aqui, conheci um outro lado. Dividir opinião. Evoluir num tema, partindo de uma opinião e, em algumas vezes, reconsiderando a opinião inicial. Exemplo: escrevi aqui que achava uma bobagem repaginar o Maracanã para que fique mais popular. Ative-me somente ao preço do ingresso, afirmando que não havia a necessidade de nenhuma obra, bastando em um determinado setor baixar o preço do ingresso.

Lendo os comentários e, ouvindo outras opiniões, inclusive do meu filho Dudu, foi fácil concluir que a minha opinião não era a melhor. Realmente, há torcedores que preferem ver o jogo em pé, mais torcendo e promovendo uma festa, do que propriamente vendo o jogo. Claro que, para isso ocorrer e, isto é bom, é preciso redesenhar o Maracanã.

Em síntese, embora já tivesse uma noção aproximada, a convivência com vocês neste blog me deu a dimensão exata da importância de saber o que as outras pessoas pensam. Aí, não preciso dizer que devoro todas as opiniões que por aqui passeiam.

(Foto: Fabio Castro/Agência Estado)

(Foto: Fabio Castro/Agência Estado)

Agora por exemplo, estava em dúvida em emitir uma opinião. Aliás, em dúvida não. Estava com medo de não ser politicamente correto. Querem saber o que me encorajou? O último comentário do companheiro YVAN BAYARDINO que, reputo simplesmente genial (ler aqui).

Juro que não é cola. O que queria dizer é que tive enorme sentimento de frustração vendo a apresentação de Mano Menezes no Cruzeiro. Este era o treinador perfeito para o Flamengo de agora. Quando aqui esteve, Mano havia saído da seleção, mas a seleção não havia saído dele. Alma amargurada afeta a cabeça. Naquele momento, não daria certo no Flamengo, nem no Barcelona. Agora, o momento é outro. Tudo conspiraria a favor.

Somado a isto, o fato de acreditar que o Flamengo não é pista de pouso para comandante novo.

Enfim, queria dizer que me fica a certeza de que perdemos uma oportunidade de ouro de começar a costurar o que entendemos como perfeição.

O meu “muito obrigado” ao amigo Yvan, fonte de inspiração, talento e coragem.

Valeu!!!

Tragédia Carioca

Niemeyer-3

Todos nós fomos impactados pela tragédia de hoje em São Conrado.

O mundo, espantado ante este drama, faz com que cada um de nós conclua que a vida nada mais é do que um fiapo.

O futebol já teve a sua tragédia escrita no mesmo lugar. Ali, pescando, sugado pelas ondas, morreu o zagueiro gaúcho Ari Ercílio, que jogava no Fluminense.

Deixo com vocês, sobre o triste tema, o texto do genial Nelson Rodrigues.


Ari Ercílio

Ari Ercílio

1 – Amigos, só conhecia Ari Ercílio de “Mário Filho”. No passado, o campo pequeno criava uma intimidade entre o torcedor e o espetáculo. Era uma relação muito mais intensa, uma convivência muito mais dramática. O torcedor sentia-se como um jogador a mais, dando botinadas em todas as direções. Mas o ex-Maracanã inaugurou uma nova distância entre o público e o espetáculo.

2 – E havia entre mim e Ari Ercílio, a separar-nos, essa distância imensa. Nunca lhe apertei a mão, nunca um “oba” nos ligou e ele seria para mim quase um desconhecido. Mas aí é que está: – o sentimento pode contrariar todas as leis da óptica. Eu gostava do gaúcho e, por ser gaúcho, dei-lhe o nome de “Domingos dos Pampas”. Várias vezes, o Marcelo Soares de Moura, em pleno fogo das batalhas, dizia: – Boa do “Domingos dos Pampas”. E o Miguel Lins era outro. Várias vezes, disse-me: – “Bacana essa do Domingos dos Pampas”. E esse “Domingos dos Pampas” criou, entre mim e ele, uma boa, nobilíssima amizade. Apesar da distância do “M ário Filho”, e da miopia que me persegue, tínhamos uma proximidade amiga.

3 – Até que, anteontem, ouço na televisão: – “Morreu Ari Ercílio”. A chamada morte natural não agride com essa violência. Há a doença, a história da doença, vai preparando não só o próprio doente, mas os outros. Há uma progressão compassiva. O pior é quando tudo acontece de repente. A pessoa está viva, tem um vasto futuro, criará seus filhos e, depois, os filhos dos seus filhos. E, de repente, a queda.

4 – Ari estava mais vivo do que nunca. Já voltava. Mas resolveu dar mais dois ou três passos. E veio a queda. Seu corpo desliza, rola, mergulha. Por que pescar ali, onde o pescador está a um milímetro da vertigem, olhando cara a cara o precipício? Outros já morreram naquele local ou nas proximidades. Lembro-me de Jackson Figueredo, que pescava também, caiu e cujo corpo foi aparecer a milhas e milhas de distância.

5 – Vejam vocês: – eu não ia escrever sobre Ari Ercílio. E explico: – não há nada mais antiliterário do que o verdadeiro sentimento. Sim, o verdadeiro sentimento escreve mal, muito mal. Quando uma crônica de saudade sai perfeita, desconfiemos da saudade: Ia dedicar a Ari Ercílio duas linhas, de passagem. E já estou chegando ao fim do meu espaço.

6 – Eis o que eu queria dizer: – a morte é anterior a si mesma. Começa antes, muito antes. Vocês imaginem que Ari Ercílio tinha feito um seguro de vida de não sei quantos milhões. Segundo me informa o Denis Menezes, a senhora do grande zagueiro ouvira do seu marido este vaticínio: – “Eu não emplaco 73”. Era já o processo da morte.

7 – Outra coisa impressionante: – Ari Ercílio estava pescando num lugar sem problemas: Nisto passa alguém e diz-lhe: – “Não adianta, companheiro. Ai não dá nada. Peixe é ali. Olha: – ali”. Era a morte que o chamava. E, segundo Denis Menezes, o grande jogador chamou a esposa para descer. Ela não quis.

8 – Ele queria terminar sua carreira no Fluminense. Terminou a carreira e a vida. Há entre Ari Ercílio e o Fluminense um vínculo mais forte que a vida e do que a morte. Amém.

Nelson Rodrigues, jornal O Globo, 22 de novembro de 1972.

Aos familiares das vítimas, os nossos sentimentos. Infelizmente, quem projetou a ciclovia não conhecia sequer o histórico do local. Ignorância fatal.

O Garoto do Placar

Em meio ao tiroteio político, e ainda tocado pelo sentimento de gratidão despertado pelos 63 aninhos de Zico, dedico este post principalmente para os mais jovens, apresentando alguém muitíssimo especial.

Celso Garcia foi um dos principais locutores esportivos do Brasil. Voz marcante, rubro-negro alucinado e, popular no Brasil inteiro, pois nas suas transmissões, numa época em que placar eletrônico ninguém ainda havia pensado, após cada gol, dizia: “ATENÇÃO GAROTO DO PLACAR DO MARACANÃ, COLOQUE…” e aí dizia o placar. Em qualquer pelada, a cada gol, sempre alguém aparecia para gritar: ” ATENÇÃO GAROTO DO PLACAR…COLOQUE…”

(Ouça, no player abaixo, a narração de um gol de Zico, em 1977, contra o ABC).

Celso Garcia foi durante anos o segundo do genial Waldir Amaral, não só na locução, como também no comando da equipe de esportes. Celso foi um chefe humano, um professor de rádio e do dia a dia. Um parceiro…

Para nós, rubro-negros, esta linda história de vida, apesar de marcante, fica em segundo plano, na medida em que pelas mãos do nosso personagem, Zico chegou à Gávea.

Pergunta: alguém tem conhecimento de alguma ação mais importante do que esta, na nossa vida pra lá de centenária?

Deixo vocês com esta foto histórica e linda. Celso Garcia, o “garoto do placar”, e Zico, o nosso Rei.

Celso Garcia e Zico.

Como o Flamengo é eterno, ao longo do tempo, Celso Garcia ficará marcado como o criador da mais genial obra de arte na história do futebol rubro-negro, até porque, Zico é único.

Em nome da nossa nação, obrigado eterno.

De minha parte, resumo tudo em duas palavras, querido Celso: Saudade danada…

Redação SporTV

Carlos Cereto e André Rizek em ação (reprodução da TV).

Carlos Cereto e André Rizek em ação (reprodução da TV).

O formato, o conteúdo e os comunicadores, não necessariamente nesta ordem, em termos de importância, fazem do Redação SporTV, muito antes de ser programa esportivo, um prazer diferenciado para quem adora futebol.

No início, com a saída do genial Marcelo Barreto, tive minhas dúvidas com respeito ao sucesso de André Rizek na condução do programa. Talvez, uma dúvida alimentada por um sentimento antigo de que, jornal é jornal e, rádio ou TV, são coisas completamente diferentes. Neste conceito, do qual já não faço parte, pois se render a uma evidência me parece lógico, há as exceções, e André Rizek é uma delas.

Em 1970, na Rádio Tupi, o então diretor comercial, Paulo Max, contratou uma fonoaudióloga, hoje celebridade, Glorinha Beuttenmüller, para “passar um verniz” em todos os comunicadores. Com a turma do esporte, as reuniões, ou melhor, as aulas, eram sempre a cada segunda-feira, pois debatíamos muito as jornadas de final de semana. Lembro que, em um destes encontros, fiz à nossa professora a seguinte pergunta: “Glorinha, como repórter, o meu produto é a notícia. O público é o consumidor. Vamos falar de técnica para a venda deste produto? Como devo fazer e de que forma devo abordar, para que o meu produto seja consumido, seja aceito, tenha força e credibilidade?” A resposta, objetiva ao máximo, foi um tiro: “SEJA SINCERO!” E é isto que sinto em André Rizek, mesmo quando com ele não concordo. E, independentemente de talento, também obrigatório, este é o item número 1 para quem se propõe a dirigir qualquer programa. Como falei em talento, também a ele não falta. Aliás, o talento que é natural, evoluiu ao longo do tempo e, hoje, diria que está próximo da perfeição.

Quando um apresentador consegue conduzir e se comportar de forma descontraída, porém, mantendo o nível e o padrão de qualidade, é sinal de que craque é. Claro que, há ali, como diria Lulu Santos, um “auxílio luxuoso”. Hoje, vou falar apenas de um deles. Carlos Cereto. Que figurinha doce, inteligente, criativa, competente, comunicativa, sincera, delicada e bem-humorada…. Que comunicador!

Pois bem, hoje, Carlos Cereto, após Rizek colocar no ar duas “correntes” tricolores, (obs: no mundo da bola, corrente é a reunião do grupo, antes e após os jogos, em que, antes, tem caráter motivacional e, após os jogos, dependendo do resultado, comemorar ou confortar…) em que um jovem jogador, e não lembro exatamente quem, e também Fred, aparecem colocando “lenha na fogueira”, isto é, mexendo nos brios da rapaziada, e de forma veemente, contundente.

Os dois pontos principais foram mencionados pelo apresentador. Primeiro, um jovem já assumindo uma postura de liderança e, no caso de Fred, uma parte em que ele pede total entrega, dizendo que após o jogo, isto feito, todos irão concluir que terá valido a pena…. Duas belas sacudidelas. Duas belas mensagens pré-jogo. Aí, entra o Cereto, com seu jeitinho doce, mas a fisionomia já demonstrando que não concordava e, numa sacada espetacular, solicita a algum companheiro, telespectador ou, a quem quer que seja que, apresente a ele a gravação da corrente da Seleção Brasileira nos 7 a 1 da Alemanha, principalmente a mensagem do Felipão. Cereto, mesmo eu discordando, e depois explico o motivo, se advogado fosse, e se num julgamento estivesse, ante tão talentoso argumento, teria ganho a causa. Em síntese, para ele, este momento do futebol é puro folclore. Mais ou menos como dizia Neném Prancha que, se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano terminaria empatado…

Com respeito aos argumentos, aí, fico mais com o Neném Prancha, e discordo, pedindo mil desculpas ao Cereto. Em grandes jogos, e com grandes times, o que acontece antes dos jogos em cada vestiário é parecido. O aspecto motivacional é muito importante. Pode não ser para quem tenha outro tipo de cultura, como por exemplo, para quem joga no futebol europeu. Aqui, a banda toca de maneira diferente. Imaginemos um Fla-Flu. Haverá a corrente, com certeza, momentos antes do jogo, nos dois vestiários. Claro que, só uma das equipes poderá sair com a vitória. Só que a vitória será definida dentro de campo. Se um dos times não sair do vestiário psicologicamente pronto, já entrará derrotado. A derrota terá sido decretada antes do jogo, no vestiário.

Sou testemunha auditiva e ocular, e também participante, de que muitos jogos foram ganhos no vestiário. Aliás, há momentos em que o vestiário é como se um templo fosse e, como tal, o pastor é decisivo. Fabio Luciano, para mim, foi o Pelé dos pastores. Como ganhou jogo…

Velho Apolo

ApolinhoO primeiro dia do mês de setembro precisa ser muito comemorado. Não pela chegada do novo mês, e sim, pelo nascimento de um genial “setembrino”. Washington Rodrigues, o “Velho Apolo”, é o nosso aniversariante do dia. E, quando um gênio da comunicação dá mais uma volta no relógio da vida, a alegria é toda nossa que, aprendemos a amar e admirar esta rara figura humana e comunicador único. Aliás, no campo profissional, já jogamos no mesmo time e já fomos “adversários”. A amizade, sempre foi a mesma. Carinho e respeito, igual. Amor, de irmãos.  Temos inúmeras coisas em comum, porém, sem dúvida, a paixão em vermelho e preto é a mais marcante.

Sempre que posso, afirmo, até porque, entendo que as homenagens devem ser feitas em vida. Washington Rodrigues, talvez seja hoje, o único gênio da comunicação radiofônica. Washington quebrou barreiras no rádio, sendo a principal delas, fazer com que um mundo de gente ficasse colada no rádio, aos sábados, de meia-noite às cinco da manhã, quando apresentava o Show da Madrugada. Ali, a audiência não era pela emissora, muito menos pelo horário. A audiência, e que audiência, era obra de um ser iluminado que, por acaso, nos apresentou o prazer de começar todo domingo de maneira mais alegre, verdadeira fonte de inspiração para a sequência de dia tão importante, principalmente quando o Flamengo jogava…

Em contra partida, como se atendesse aos nossos pedidos, Papai do Céu tem sido generoso com o nosso aniversariante. Colocou ao lado dele, durante um lindo tempo de vida, uma companheira como se tivesse sido feita, moldada para ele. Maria Lucia, deve estar passando no mundo azul, desconhecido por nós, um dia muito feliz. Os dois construíram uma família adorável e hoje, como legado de uma linda amizade, de tanto afeto e carinho, tenho o privilégio de conviver, dia sim, dia também, com Brunão, um de seus filhos.

Se pudesse eu modificar alguma coisa neste nosso mundo da comunicação, trocaria de data o dia consagrado ao tema. Deixaria de ser o dia da comunicação comemorado a cada 05 de maio e passaria para 1º de setembro. Seria mais justo… E, atenção para a total imparcialidade do “locutor que vos fala”, que nasceu no quinto dia do mês de maio…

Que o seu dia, meu amado Velho Apolo, esteja sendo lindo, inspirado na sua alminha abençoada por Deus.

 

Meu amigo Yustrich

Dorival Knipel, ou Yustrich.

Dorival Knipel, ou Yustrich.

Após o post de ontem, aliás, agradeço aos queridos companheiros pelos comentários, houve quem duvidasse que Yustrich tenha tido realmente um amigo jornalista. Por favor, não duvidem. Teve sim, e fui eu.

Convivi com Dorival Knipel, popular Yustrich, quase que diariamente durante os anos de 1970 e 1971. O nosso extraordinário personagem que, como jogador, foi quatro vezes campeão pelo Flamengo e, como treinador, ganhou uma Taça Guanabara, à época em que a Taça Guanabara era um campeonato quase que à parte, pois tinha, além da Taça, volta olímpica e muita comemoração. Ainda como treinador, foi campeão mineiro por quase todos os clubes: Cruzeiro, Atlético, América e até, campeão pelo Siderúrgica, isto em 1964. Também foi campeão português e campeão da Taça de Portugal, treinando o Porto, na temporada 1955/1956. Seu último título como treinador foi pelo Cruzeiro, em 1977, clube onde também encerrou a carreira em 1982.

O nosso personagem, e que personagem, tinha cara de poucos amigos, era enorme, de poucas palavras e era objetivo ao extremo. Os jornalistas que cobriam o Flamengo tinham com ele uma convivência meramente profissional, até porque, penetrar naquela alma não era missão fácil.

O destino nos uniu, quando começando eu na rádio Tupi, recebi do inesquecível Doalcei Benedicto Bueno de Camargo, chefe da equipe e notável locutor, a missão de preencher boa parte de um domingo à tarde, sem futebol, pois era período de férias dos jogadores, em que, obrigatoriamente, deveria apresentar uma matéria “digna”, com o treinador do Flamengo.

Quando recebi este presente de grego, nem acreditei. Achei mesmo que fosse uma pegadinha, pois quatro dias antes, ao sair de férias, Yustrich juntou todos os jornalistas para solicitar que ninguém o importunasse no seu descanso, que seria em seu sítio, em Vespasiano, um pouquinho fora de Belo Horizonte. Quando caí na real, a única coisa que me veio à cabeça foi imaginar que, muito antes desta missão ser um problema, poderia ser, não um presente de grego e, sim, de Deus, pois um “foca” conseguir esta proeza, seria como um primeiro e importante gol na profissão. Primeiro, com jeitinho, fui até o Dodô (assim chamávamos o grande Doalcei), e deixei claro que faria de tudo para conseguir a matéria, mas que tivesse ele a noção da dificuldade da missão. A reação dele me matou, pois disse: “Se pedi para você fazer, é porque tenho certeza de que você pode”. Me mandou passar na administração para pegar as diárias, a passagem, e me desejou boa sorte. Isto, uma quinta-feira. Primeira missão foi descobrir onde era o sítio em Vespasiano e, por favor, principalmente os mais jovens, não imaginem o ano de 1970 com a tecnologia de hoje… Lembrei de uma querida amiga, também jornalista, que vivia em Belo Horizonte e, não foi difícil para ela, em menos de uma hora, descobrir o endereço. Enquanto ela procurava, imaginei como deveria aparecer para ele e, dizer o que? Uma luz, do nada, pintou na minha cabeça quando o telefone tocou, e esta minha amiga me dava a boa notícia de ter conseguido o endereço. Achei que, se chegasse acompanhado, seria mais gentil, mais suave, mais fácil de explicar as nossas presenças. Minha amiga não só topou como, aliás, adorou a ideia da aventura, e se prontificou a levar uma amiga, que era gaúcha e estava hospedada na casa dela.

Peguei o avião na sexta-feira bem cedo, as duas me buscaram no aeroporto e, rumamos direto para Vespasiano. O meu gravador, era, se não estou equivocado da marca UHER e, como características, a qualidade de som e o tamanho. Era enorme… portanto tinha que ficar no carro da minha amiga, pois nem de longe o nosso personagem poderia desconfiar, pelo menos no início, do propósito real da visita. Ah, ia esquecendo de dizer que esta minha amiga jornalista, além de competentíssima e simpática, era muito bonita. A amiga, da amiga, mais bonita ainda… Finalmente, chegamos. Paramos o carro e nos deparamos com um portão enorme de madeira, com algumas frestas que possibilitavam parcial visão do interior do sítio. Mesmo longe, vimos de cara, uma rede branca, balançando, e alguém muito grande estava ali deitado. Suando frio, toquei o sino que ali estava para anunciar a chegada de algum visitante. Segundos após, o portão foi aberto, se a memória não me trai o nome, por Maria, mulher de Yustrich. Simpática, nos recebeu e fui logo dizendo que eu era do Rio, que iria passar o final de semana na casa das minhas amigas e, como uma delas também tinha um sítio em Vespasiano, não poderíamos perder a oportunidade de levar as flores (compramos no caminho) para o casal. De repente, alguém se levanta da rede branca e vem até nós. Não precisei falar nada, pois a dona da casa fez a nossa introdução com enorme carinho. Yustrich me cumprimentou, ficou visivelmente impressionado com a beleza e a simpatia das suas visitantes inesperadas e, nos convidou para entrar. O papo rolou de forma descontraída e amigável, diria mesmo, adorável. Tão bom que, convidados fomos para almoçar. Aceitamos, claro, e o almoço, de tão agradável foi quase até às seis da tarde. Com todos já quase íntimos, imaginei que havia chegado a hora de engatar uma segunda e, pedir a entrevista. Criei coragem e falei o quanto seria importante para mim que estava começando, gravar uma matéria especial com o dono da casa. Yustrich, concordou, porém só fez uma exigência. Tínhamos que voltar para novamente almoçar com eles no dia seguinte. Nem acreditei…

E, ele ainda perguntou: Mas, com que gravador você vai fazer a entrevista? Respondi que minha amiga tinha um UHER espetacular… No dia seguinte, voltamos. Um sábado memorável, um sábado que faz parte da minha história de vida. Talvez, mesmo em se tratando de um “foca”, tenha feito uma das melhores entrevistas como profissional de rádio.  Duas horas de gravação!!! Um show!!! Peguei o último voo para o Rio e ainda no sábado à noite, madrugada adentro, editei o material. A entrevista, de tão boa, foi publicada no dia seguinte, em três páginas, no JORNAL DOS SPORTS.

Há pessoas que somam, que são importantes e decisivas na sua vida. Para mim, Yustrich foi uma delas. O meu primeiro degrau profissional. A minha primeira grande vitória. Onde quer que você esteja neste misterioso e, para nós, desconhecido mundo azul, muitíssimo obrigado, querido amigo.

 

O brasileiro que ganhou do príncipe árabe

bangu-atltico-clubeAno, 1971. A Liga Americana de futebol contratou o Bangu, que tinha um bom time, para um giro de quase três meses. Naquela época, era lei, qualquer delegação brasileira que viajasse para o exterior ter entre os membros da delegação um jornalista. O convidado para este autêntico “filet mignon” foi o saudoso Afonso Soares que, em cima da hora, por um problema de saúde, comunicou que não poderia viajar. Numa atitude de extrema delicadeza, os dirigentes do Bangu solicitaram que o convidado indicasse um substituto. E Afonso me indicou. Curioso, como as almas se encontram. Ele, tricolor. Eu rubro-negro. Ele, portelense. Eu, Estação Primeira de Mangueira. Ele, consagrado, talento raro. Eu, nada. Começando… Enfim, por estes inexplicáveis encontros de alma, Afonso Soares proporcionou a minha primeira viagem internacional. E, na primeira, logo para os Estados Unidos…

O Bangu tinha um belo time. Ney, que até um tempo atrás estava no Santos como treinador de goleiros, era o número 1 do time. Goleiraço!!! Cabrita, o lateral direito. No meio, Fernando, o camisa 5, que parecia meu irmão gêmeo e, sobre isto ainda tenho algo curioso para contar. Alves, era um meio campista super criativo. Jorginho carvoeiro, logo depois campeão brasileiro pelo Vasco, era o ponta-direita.  Edson Trombada, um tanque, que depois foi para o Flamengo, era o centroavante. Samuel, talentosíssimo, era o camisa 10. O treinador era o famoso Esquerdinha.

Em Chicago, após uma exibição de gala, o chefe da delegação, Heider José de Souza, foi procurado pelo presidente da comunidade brasileira local, que convidava a delegação para jantar e comemorar a vitória na boate, que era a sensação do momento. Convite feito, convite aceito pela maioria da delegação. E lá fomos nós saborear a vitória e conhecer o point de Chicago. Na chegada uma desagradável surpresa. Lá, já estava o presidente da nossa comunidade verde e amarela, comunicando que, infelizmente, a boate fora fechada para uma festa prive por um príncipe árabe. Após inúmeras tentativas por parte do nosso pessoal local, quando estávamos indo embora, surge um esbaforido enviado do príncipe árabe, dizendo que o mesmo havia assistido ao jogo e se encantara com o time do Bangu, convidando toda a turma para comemorar com ele a grande vitória. Entramos animadíssimos, e nos deparamos com uma disposição de mesas um tanto quanto estranha. Era uma fileira única de cadeiras em frente ao palco, onde o príncipe estava bem no meio e, óbvio, sobrou para nós a ponta-esquerda.

Começa o show e aparece uma contorcionista/dançarina, fenômeno de beleza, que deixou todos loucos. Ao meu lado um dos jogadores do Bangu foi literalmente à loucura. Saiu do sério. Ficou de joelhos, rezou para ela, enfim, fez o diabo para ser notado pela musa. E foi!!! Final do show. Quando o nosso personagem imaginava invadir o palco e se declarar para aquela loucura de mulher, um som de palmas… Era o príncipe convocando a deusa para ficar com ele. Na passagem até o príncipe o nosso craque se ajoelhou diante dela e, em português, rogou que voltasse para ele. A deusa, que nada falava de português, foi para o príncipe e, como num passe de mágica, terminou nos braços do brasileiro jogador. Sumiram…O príncipe irado. Ambiente horroroso. E nos restou ir embora.

Dia seguinte. Nova viagem. Saída marcada para o aeroporto para às 08:00h. Uma hora e meia antes, fui procurado pela nossa turminha preocupada com o louco desaparecimento do nosso craque. Depois de algumas providências, como arrumar sua mala e esperar por um milagre do aparecimento, eis que avisto no estacionamento do hotel, no carro conversível dela, o casal, apaixonado, abufelado e, em prantos, se despedindo. Com delicadeza, lá fui e disse da importância de seguirmos viagem. Já havia gente querendo punir o nosso craque por indisciplina, inclusive, já programando uma volta desgarrada…solitária… Felizmente, houve tempo para tudo. Para a despedida, para pegar o ônibus que nos conduziria ao aeroporto, e para todo o restante da excursão. Na volta, lado a lado, com ele no avião, vi por uma dezena de vezes a foto daquela linda mulher, mostrada por ele, com certeza, sua alma gêmea. Mostrava e chorava, afirmando que aquela era a mulher da vida dele. E foi!!! Embora nunca mais tivessem se encontrado…. E que mulher!!! Reverenciou o amor, felizmente, muito mais importante do que um príncipe árabe. Este depoimento é uma homenagem à mulher, como ser sublime, capaz de tudo pelo amor. E ao meu querido amigo que, com amor e talento, mandou um príncipe árabe para o espaço.

Com todo respeito…

Juninho Pernambucano

Foto: Reprodução SporTV

Foto: Reprodução SporTV

Hoje, um telespectador mandou sua pergunta para os analistas da Globo: “Contra que adversário o Brasil foi melhor? Hoje, contra o Japão ou no jogo passado contra a Argentina?”.
De cara, Casagrande, mesmo reconhecendo a bela atuação contra o Japão, afirmou que pelo peso do adversário, atual vice-campeão do mundo,  a atuação de destaque da Seleção Brasileira, sem dúvida, foi contra a Argentina. Juninho Pernambucano que, a exemplo de Roger Flores, tem sido uma grata surpresa como comentarista,  afirmou que, apesar da Argentina ter sido um oponente que exigiu mais, a atuação da Seleção Brasileira contra o Japão havia sido a melhor até agora. Se Juninho ainda estivesse jogando, diria que ele acabara de perder um pênalti… Como no futebol, meu caro Juninho, também na “latinha”se perde pênalti…

Jornalismo sério

Não posso deixar de registrar a forma correta e justa com que, os profissionais do LANCE tratam os personagens do mundo do futebol. Enquanto muitos veículos evitam depoimentos que possam contrariar alguma notícia publicada, o Lance e seus profissionais têm demonstrado ser muito mais importante chegar à verdade, mesmo que para isso tenham que colocar em risco uma informação por eles divulgada anteriormente.

Capa do Jornal Lance-RJ - 27/07/14

Capa do Jornal Lance-RJ – 27/07/14

 

A edição de hoje, na página 11, deixa isso bem claro. Ontem, o jornal concluiu que o objetivo deste Blog era fortalecer uma possível candidatura de Luiz Eduardo Batista, o Bap, à presidência do Flamengo e, ao mesmo tempo, enfraquecer uma possível candidatura de Wallim Vasconcelos. Hoje, com destaque, o repórter David Nascimento, reproduziu parte do material de ontem do Blog, negando o que havia sido publicado pelo Lance. Isto, é jornalismo sério. Parabéns!!!

 

E, vamos ao clássico dos mistérios… Sheik, joga? Se não jogar, as possibilidades do Flamengo aumentam muito. Todos ao Maraca…